ENTREVISTA

15/11/2023


ENTREVISTA: Documentarista Mark Cousins diz que o cinema é "o sublime acessível" (C/ÁUDIO)


*** Serviço áudio disponível em www.lusa.pt ***

*** Sílvia Borges da Silva, da agência Lusa ***

Lisboa, 15 nov 2023 (Lusa) – O realizador e investigador britânico Mark Cousins considera que o cinema é "o sublime acessível", que deve ser preservado, protegido e ensinado aos espectadores, como contou à agência Lusa.

Mark Cousins estreia esta semana em Portugal o documentário "O meu nome é Hitchcock", no qual revisita toda a filmografia deste cineasta, a partir de uma perspetiva mais lúdica e intimista, como se Alfred Hitchock vivesse no século XXI e olhasse para o passado e para os filmes que realizou.

Em entrevista à agência Lusa a propósito desta estreia, Mark Cousins sublinhou a importância de se preservar, restaurar, digitalizar o cinema, para que possa chegar a novos públicos e para que daí possam surgir novas perspetivas.

"O meu nome é Hitchcock" é exemplo disso: "Peguei num caderno e vi todos os filmes dele, por ordem cronológica. Ao segundo filme pensei que havia qualquer coisa de interessante a explorar ali", disse Mark Cousins, sobre o trabalho preparatório, que decorreu ainda em pleno confinamento da pandemia da covid-19.

No documentário, por momentos, o espectador é levado a crer que o narrador é o próprio Alfred Hitchcock, explicando planos, cenas, conceitos; mas na verdade o texto é de Mark Cousins e a voz é do ator Alistair McGowan, com ambos a colocarem-se no lugar do cineasta, olhando para os filmes à luz de vários conceitos – fuga, desejo, tempo, solidão.

"Foi como escrever um monólogo para teatro. (…) Quando olhamos para a carreira dele, ele não tentou captar o espírito do tempo. Nos anos 1950 não fez filmes sobre rock'n'roll. Nos 70 não fez filmes sobre os hippies. Ele esteve mais interessado em filmes intemporais e eu acho que isso é que resultou que sejam continuamente interessantes", disse Mark Cousins.

O realizador britânico estreou "O meu nome é Hitchcock" pouco antes do documentário "Marcha sobre Roma" (2022) – este filme está ainda em cartaz em Portugal – sobre a ascensão do fascismo em Itália.

Na prolífica filmografia há ainda outras abordagens aos arquivos do cinema, como "The Eyes of Orson Welles" (2017) ou "The Story of Film: An Odyssey" (2011), mas também extensos projetos abrangentes e quase enciclopédicos como "Women make Film" (2018) e "A Story of Children and Film" (2013).

"Estou interessado em pensamento visual, em pensar através das imagens. Na escola, eu era mau com as palavras, era um leitor muito lento, mas percebi que tinha memória visual e que me estruturava melhor com imagens", explicou, quando questionado sobre o que o motiva em cada novo projeto.

"Eu vinha de uma família de operários de Belfast. Tivemos uma guerra, não podíamos ir muito ao cinema, mas tínhamos a BBC, que mostrava clássicos, Fred Astaire, Ginger Rogers e Gene Kelly, Hitchcock. E fique obcecado. Não pelas histórias. Nunca estive interessado nas histórias, mas nas cores, na forma, no formato dos filmes, na forma como Gene Kelly dançava, feminino e masculino, tudo isso parecia-me transgressor. Hollywood parecia-me profundamente mais atrevido e tão diferente dos aborrecidos anos 1970 de Belfast", recordou.

Ainda a propósito de memória e cinema, o investigador dá como exemplo o cinema português, atualmente em processo de digitalização pela Cinemateca Portuguesa, com verbas do Plano de Recuperação e Resiliência.

"Se recuarmos a 1942 e virmos o 'Aniki Bobó' [de Manoel de Oliveira] é como abrir uma garrafa e sentir o ar de 1942. O filme era uma 'message in a bottle' [como uma cápsula do tempo]. Um país que tem uma história tão complexa como o vosso, alguns filmes durante o período de Salazar são bons, mas também captam a complexidade do tempo e reforçam alguns dos valores de Salazar. Isso é tudo importante", descreveu.

E é por isso que, diz Mark Cousins, é preciso proteger o cinema da mesma forma que se protege a literatura.

"O cinema fala de uma forma única e atmosférica. Temos de ensinar os miúdos a analisar o cinema, porque infelizmente pode ser perigoso e transmitir mensagens muito más sobre os seres humanos, mas a educação fílmica deve ocorrer em paralelo à preservação fílmica", defendeu.

Mark Cousins, 58 anos, contou que o seu interesse pelo cinema começou quando tinha "oito anos e meio" e recorda que é a idade para a "iniciação mágica".

Tanto que, em 2010, juntamente com atriz Tilda Swinton, criou uma organização intitulada "8 1/2 Foundation", dedicada a aproximar as crianças do cinema a partir, precisamente, dos oito anos e meio.

"Ver um filme numa sala é diferente de ver em qualquer outro aparelho, porque não podemos fazer uma pausa, temos de abdicar do controlo. O cinema - não interessa o tamanho do ecrã em casa - é maior do que a vida, é luminoso. Costumo dizer que ir ao cinema é como estar sentado no inverno a contemplar o verão. O cinema é o sublime acessível, é sublime e não é dispendioso", considerou.


INTERVIEW : Le documentariste Mark Cousins dit que le cinéma est « le sublime accessible » (W/AUDIO)


*** Serviço áudio disponível em www.lusa.pt ***

*** Sílvia Borges da Silva, da agência Lusa ***

Lisboa, 15 nov 2023 (Lusa) – Le réalisateur et chercheur britannique Mark Cousins considère que le cinéma est « le sublime accessible », qu’il faut préserver, protéger et enseigner aux spectateurs, comme il l’a confié à l’agence Lusa.

Mark Cousins présente cette semaine au Portugal en avant-première le documentaire « My name is Hitchcock », dans lequel il revisite toute la filmographie de ce cinéaste, d’un point de vue plus ludique et intime, comme si Alfred Hitchock vivait au 21ème siècle et regardait le passé et les films qu’il a réalisés.

Dans une interview accordée à l’agence Lusa à propos de cette première, Mark Cousins a souligné l’importance de préserver, restaurer, numériser le cinéma, afin qu’il puisse toucher de nouveaux publics et que de nouvelles perspectives puissent en émerger.

« Je m’appelle Hitchcock » en est un exemple : « J’ai pris un carnet et j’ai regardé tous ses films, dans l’ordre chronologique. Dans le deuxième film, j’ai pensé qu’il y avait quelque chose d’intéressant à explorer là-bas », a déclaré Mark Cousins, à propos du travail préparatoire, qui s’est déroulé en plein confinement de la pandémie de covid-19.

Dans le documentaire, pendant quelques instants, le spectateur est amené à croire que le narrateur est Alfred Hitchcock lui-même, expliquant des plans, des scènes, des concepts ; mais en fait, le texte est de Mark Cousins et la voix est de l’acteur Alistair McGowan, tous deux se mettant à la place du cinéaste, regardant les films à la lumière de divers concepts – l’évasion, le désir, le temps, la solitude.

« C’était comme écrire un monologue pour le théâtre. (...) Quand on regarde sa carrière, il n’a pas cherché à capter l’air du temps. Dans les années 1950, il n’a pas fait de films sur le rock’n’roll. Dans les années 70, il n’a pas fait de films sur les hippies. Il s’intéresse davantage aux films intemporels et je pense que c’est pour cela qu’ils sont toujours intéressants », a déclaré Mark Cousins.

Le réalisateur britannique a présenté en avant-première « My Name is Hitchcock » peu de temps avant le documentaire « March on Rome » (2022) - ce film est toujours à l’affiche au Portugal - sur la montée du fascisme en Italie.

Dans la filmographie prolifique, il existe également d’autres approches des archives du cinéma, telles que « Les yeux d’Orson Welles » (2017) ou « L’histoire du cinéma : une odyssée » (2011), mais aussi de vastes projets de grande envergure et presque encyclopédiques tels que « Les femmes font du cinéma » (2018) et « Une histoire d’enfants et de cinéma » (2013).

« Ce qui m’intéresse, c’est la pensée visuelle, c’est la pensée à travers les images. À l’école, j’étais mauvais avec les mots, je lisais très lentement, mais je me suis rendu compte que j’avais une mémoire visuelle et que je me structurais mieux avec des images », explique-t-il, lorsqu’on lui demande ce qui le motive dans chaque nouveau projet.

« Je viens d’une famille de cols bleus de Belfast. Nous avions une guerre, nous ne pouvions pas aller beaucoup au cinéma, mais nous avions la BBC, qui montrait des classiques, Fred Astaire, Ginger Rogers et Gene Kelly, Hitchcock. Et obsédé. Pas à cause des histoires. Je n’ai jamais été intéressé par les histoires, mais les couleurs, la forme, le format des films, la façon dont Gene Kelly dansait, féminin et masculin, tout cela me semblait transgressif. Hollywood m’a semblé profondément plus torride et si différent du Belfast ennuyeux des années 1970 », se souvient-il.

Toujours sur le thème de la mémoire et du cinéma, la chercheuse donne comme exemple le cinéma portugais, actuellement en cours de numérisation par la Cinemateca Portuguesa, avec des fonds du Plan de relance et de résilience.

« Si nous revenons en 1942 et que nous voyons 'Aniki Bobó' [de Manoel de Oliveira], c’est comme ouvrir une bouteille et sentir l’air de 1942. Le film était un « message dans une bouteille ». Un pays qui a une histoire aussi complexe que la vôtre, certains films de l’époque de Salazar sont bons, mais ils capturent aussi la complexité du temps et renforcent certaines des valeurs de Salazar. C’est très important », a-t-il décrit.

Et c’est pourquoi, dit Mark Cousins, il faut protéger le cinéma de la même manière que l’on protège la littérature.

« Le cinéma parle d’une manière unique et atmosphérique. Nous devons apprendre aux enfants à analyser le cinéma, car malheureusement, il peut être dangereux et véhiculer de très mauvais messages sur les êtres humains, mais l’éducation cinématographique doit se faire en parallèle de la préservation des films », a-t-il affirmé.

Mark Cousins, 58 ans, a déclaré que son intérêt pour le cinéma avait commencé à l’âge de « huit ans et demi » et se souvient que c’est l’âge de « l’initiation magique ».

À tel point qu’en 2010, avec l’actrice Tilda Swinton, elle a créé une organisation appelée « Fondation 8 1/2 », dédiée à rapprocher les enfants du cinéma dès l’âge de huit ans et demi.

« Regarder un film dans une pièce est différent de le regarder sur n’importe quel autre appareil, car vous ne pouvez pas faire de pause, vous devez abandonner le contrôle. Le cinéma, quelle que soit la taille de l’écran à la maison, est plus grand que nature, il est lumineux. Je dis souvent qu’aller au cinéma, c’est comme s’asseoir en hiver à contempler l’été. Le cinéma, c’est le sublime accessible, c’est sublime et ce n’est pas cher », a-t-il déclaré.

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